terça-feira, 30 de abril de 2013

um pouquinho de poesia pra alegrar o dia...



tem dor que a gente toma comprimidos
e sara

tem dor que a gente toma um porre
e esquece

tem dor que a gente joga no tempo
e no que passa
o tempo leva

mas tem dor
que a gente toma comprimidos
e não sara

toma um porre
e não esquece

joga no tempo
e o tempo não leva

faz o seguinte: aguarda
e aos poucos
a dor
vai cativando

se ela gostar de você
concede doer
só de vez em quando

(...)



o problema do ciúme
é quando um
tolhe tanto
o outro
que o outro
torna-se um
outro
que nem um
nem outro
gostam

e vice-versa

depuração, neonazistas, Niterói...



Agora de noite relendo minhas boas vindas aqui no blog fiquei pensando na proposta que se delineou com meu discurso acerca da depuração. Em parte achei um texto emotivo pra cacete – o que é até bacana e bem característico de muitos dos meus textos – e que apontava um viés estranho que nem eu mesmo pude entender direito o que me propunha. Talvez regido por fatores pessoais que não caibam aqui e agora elucidar. Talvez... Mas o fato é que fiquei me perguntando – e agora, Bodão? Qual vai ser desse blog?

Bom, vou seguir o fluxo e falar sobre um tema que me parece fazer um certo sentido com o que foi dito e com o que vem se passando na minha cabeça nos últimos dias.

Não sei ao certo se ontem ou anteontem houve um caso que chocou a população de Niterói e adjacências, ganhando grande repercussão na imprensa. Falo sobre o espancamento de um jovem de origem nordestina por integrantes de um grupo neonazista em plena luz do dia numa das áreas mais movimentadas da cidade. Justamente por conta desse intenso movimento, o mesmo escapou, sendo socorrido pelas pessoas que ali passavam.

Num primeiro momento, choca a existência de um grupo neonazista, sempre chocará. Estamos acostumados a pensar esse fenômeno como algo próprio do continente europeu, quando muito presentes no Sul do país e em algumas regiões de São Paulo. Essa ocorrência numa cidade como Niterói, a princípio, parece completamente fora de propósito, anacrônica, implausível.

Mas me pergunto – será mesmo tão implausível assim?

Não sei se por conta de ter nascido e crescido aqui, especialmente no bairro de Icaraí, um bairro predominantemente de classe média e média alta, e por conhecer profundamente diferentes gerações de moradores, confesso que tal ocorrência não me causou propriamente espanto. Mesmo quando soube que esse tal grupo é composto por pessoas de Niterói, Rio e São Gonçalo. O fato é que o espancamento aconteceu aqui, em frente à estação das barcas.

Em parte por conta do meu trajeto na cidade do Rio de Janeiro, onde em geral estabeleci relações de amizade ligadas ao samba, à poesia, ao trabalho e ao estudo, tendo ainda morado por algumas vezes em diferentes bairros, mas sem ter essa coisa de cria do local. Em parte também por conta das escolhas profissionais e acadêmicas que empreendi, penso eu, norteando minimamente os locais que frequento, tal fato me soaria mais incongruente na maior parte da cidade do Rio de Janeiro. 

Talvez por sua vocação menos provinciana e mais cosmopolita – ainda que nem tão cosmopolita assim – tenho para mim que a presença de tais grupos no Rio, ainda que os tenham, são ao menos mais inibidas e escamoteadas do tecido social urbano. Não sei, talvez, eu penso, por conta desse caráter mais cosmopolita, tais manifestações são mais dissimuladas, como aliás o racismo se apresenta de modo geral em nossa sociedade.

Bom, o fato é que imediatamente me lembrei de uma foto em preto e branco, antiga, talvez do começo do século passado, postada no facebook que mostrava uma bandeira nazista hasteada onde, se não me engano, está localizado hoje o Iate Clube Brasileiro, na Estrada Fróes, que faz a ligação entre os bairros de Icaraí e São Francisco, margeando o morro do Cavalão. Estrada, aliás, que é quase totalmente ocupada por grandes casarões e mansões com acesso à Baía de Guanabara e que exerce uma incrível dissonância geográfica com o entorno quando notamos que ficam ao lado de uma das mais populosas favelas da cidade. Enfim, como em geral é quase todo o Rio de Janeiro... 

Ao lado dessa lembrança, me vem a ainda a percepção cotidiana de como em Niterói é onde escuto mais despudoramente piadas de cunho racista nos bares e mesmo entre conhecidos. E isso me soa de modo mais marcante justamente porque não estou acostumado a ouvir tais piadas já há bastante tempo, em parte pelos lugares que frequento, imagino, mas com certeza também em grande parte por conta da assimilação do racismo e das piadas de cunho racista como crime. As pessoas por aqui, apesar de por vezes baixarem o tom de voz para desfiar seus descalabros, decididamente parecem não ter vergonha de assumir seu racismo. 

Piadas homofóbicas e machistas são bem mais comuns em quase todos os botecos e pés sujos que frequento. Mas piadas racistas, tão despudoramente contadas como aqui por essas bandas, confesso que não consigo me lembrar nos dias atuais.

Sem falar na eterna desqualificação de São Gonçalo, desqualificação que me é mais irritante ainda – apesar de até certa medida compreensível – quando reproduzida e legitimada por seus próprios moradores, que assimilam o preconceito e passam a sacanear aspectos da sua cidade e mencionam quase sempre timidamente os nomes de seus locais de moradia.

Se pensarmos em quão pouco tempo, dentro de uma perspectiva histórica mais ampla tais ideologias passaram a ser tomadas como crime e enfrentadas socialmente; se pensarmos em como persiste um corolário de manifestações de intolerância e de quão pouco tempo faz do final do período da ditadura e começo da implementação de um regime democrático, essa ameaça já não soa tão anacrônica e implausível assim. 

Mas, sincera e infelizmente, se pensarmos em certas características da cidade de Niterói, fica menos ainda.
Uma chave para o entendimento dessa questão talvez seja possível a partir de um recorte histórico genealógico que remonte ao processo de ocupação e das vicissitudes políticas da cidade e do Estado do Rio de Janeiro como um todo. Talvez.

Mas o que fica patente é a necessidade óbvia de efetivar-se uma resposta imediata e exemplar a fim de ampliar o alcance das medidas voltadas para a superação e enfrentamento desse tipo de pensamento.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

boas vindas

Tenho pensado muito na palavra depuração. Decerto essa preocupação é motivada por algumas perdas recentes e pela necessidade de adoção de novas atitudes e novos comportamentos mais, digamos (com todos os riscos e considerações que trago junto a esse vocábulo), saudáveis. Seja por ordens médicas e/ou urgências existenciais, devo parar de beber, devo tratar meu fígado, tentar eliminar o vírus da hepatite C, estou no início do doutorado, descortinam-se novos desafios de trabalho e outras situações incompatíveis com meu alcoolismo e o uso de drogas que venho fazendo há anos.

No entanto, ao pensar nos sentidos possíveis do ato de depurar-me, me atento com particular interesse a um processo que venho desempenhando também há anos, seja através dos estudos, do trabalho, ou mesmo pelo convívio intenso com a tessitura urbana e sua fauna fenomenal.

Sou oriundo da classe média. Trago em meu corpo as marcas do modelo educacional tradicional e da repressão moral que tanto caracterizam essa parcela da sociedade, repressão moral esta que encontra eco na sua reprodução cotidiana, talvez, a principal marca constitutiva dessa classe social. Reprimidos repressores perpetuadores da repressão legitimada.

Trago ainda em meu corpo as marcas do tempo, fazendo com que persistam em minhas sístoles uma série de preconceitos e estereótipos, contra os quais travo uma batalha contínua. E nesse sentido, depuradora.

Depuração também com bigodes longos e martelo em punho, uma vez que fui gradualmente ressignificando os valores e reposicionando as altitudes nobres e os humores mais baixos, os quais hoje elevo à potência máxima.

Há que se depurar, a meu ver, portanto, de toda pureza. Sabermo-nos habitando o solo mundano, sem com isso também cair na esparrela de sacralizar a lama. Nem um, nem outro. Apenas isso mesmo: o mundo, a vida, a existência e os movimentos carnais e telúricos que nos habitam e que habitamos.

Não tenho vergonha propriamente das forças retrógadas e conservadoras que persistem e circulam feito magma em meu sangue, sempre buscando naturalizar e cristalizar sentidos para que se perpetuem. Antes, devo depurar-me como quem trava uma batalha interna contra meus próprios racismos, sexismos, machismos, homofobias, e outras formas mais de preconceito e intolerância.

Não quero com isso tampouco dizer que meus 40 anos sirvam de caução para que eu permaneça inerte, reverberando ecos dessas formas arcaicas de pensamento. Não. Antes acredito que um primeiro e importante passo para a superação e aceitação da diferença e do outro passe necessariamente por um escrutínio constante e inquebrantável das formas de presentificação e atravessamento desses outros que perambulam por entre nossos gritos, gestos, reflexões, emoções, sentimentos, ejaculações, lamentos, ações, reações e entrelinhas.

Sem querer me estender por demais nessas linhas, apresento assim a força que me impele a construir esse blog e a expor meus pensamentos. Prometo me manter sempre aberto às críticas, assim como espero que vocês também relevem o meu jeitinho, digamos, por vezes meio bruto de responder a determinados tons que porventura considerar levianos ou agressivos. Sou assim e essa é minha tentativa de depuração: um mergulho em mim procurando encontrar vocês, mergulhando em vocês leitores concretos-virtuais-imaginários e fecundando um solo abstrato composto de uma lama poética impura e bela, profícua em novos sentidos, encontros e diálogos.

Ah, e MUITA POESIA também, é claro! Senão, decerto não seria eu.

Dito isso, por fim, ou por enquanto, dois poemas. Um do Drummond, “Os ombros suportam o mundo”, um dos meus poemas prediletos desse poeta maravilhoso que tanto amo. Outro meu, em homenagem ao dia do sorriso. Posto o link do youtube que me conhece já está careca de ver. Mas aí também foda-se. Eu o adoro!

Escolho-os porquanto elucidam, à maneira poética, o momento que hoje mais do que nunca estou passando.

Beijos a tod@s, sejam bem vind@s!

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
 mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade