Tenho pensado muito na palavra depuração. Decerto essa preocupação é motivada por algumas perdas recentes e pela necessidade de adoção de novas atitudes e novos comportamentos mais, digamos (com todos os riscos e considerações que trago junto a esse vocábulo), saudáveis. Seja por ordens médicas e/ou urgências existenciais, devo parar de beber, devo tratar meu fígado, tentar eliminar o vírus da hepatite C, estou no início do doutorado, descortinam-se novos desafios de trabalho e outras situações incompatíveis com meu alcoolismo e o uso de drogas que venho fazendo há anos.
No entanto, ao pensar nos sentidos possíveis do ato de depurar-me, me atento com particular interesse a um processo que venho desempenhando também há anos, seja através dos estudos, do trabalho, ou mesmo pelo convívio intenso com a tessitura urbana e sua fauna fenomenal.
Sou oriundo da classe média. Trago em meu corpo as marcas do modelo educacional tradicional e da repressão moral que tanto caracterizam essa parcela da sociedade, repressão moral esta que encontra eco na sua reprodução cotidiana, talvez, a principal marca constitutiva dessa classe social. Reprimidos repressores perpetuadores da repressão legitimada.
Trago ainda em meu corpo as marcas do tempo, fazendo com que persistam em minhas sístoles uma série de preconceitos e estereótipos, contra os quais travo uma batalha contínua. E nesse sentido, depuradora.
Depuração também com bigodes longos e martelo em punho, uma vez que fui gradualmente ressignificando os valores e reposicionando as altitudes nobres e os humores mais baixos, os quais hoje elevo à potência máxima.
Há que se depurar, a meu ver, portanto, de toda pureza. Sabermo-nos habitando o solo mundano, sem com isso também cair na esparrela de sacralizar a lama. Nem um, nem outro. Apenas isso mesmo: o mundo, a vida, a existência e os movimentos carnais e telúricos que nos habitam e que habitamos.
Não tenho vergonha propriamente das forças retrógadas e conservadoras que persistem e circulam feito magma em meu sangue, sempre buscando naturalizar e cristalizar sentidos para que se perpetuem. Antes, devo depurar-me como quem trava uma batalha interna contra meus próprios racismos, sexismos, machismos, homofobias, e outras formas mais de preconceito e intolerância.
Não quero com isso tampouco dizer que meus 40 anos sirvam de caução para que eu permaneça inerte, reverberando ecos dessas formas arcaicas de pensamento. Não. Antes acredito que um primeiro e importante passo para a superação e aceitação da diferença e do outro passe necessariamente por um escrutínio constante e inquebrantável das formas de presentificação e atravessamento desses outros que perambulam por entre nossos gritos, gestos, reflexões, emoções, sentimentos, ejaculações, lamentos, ações, reações e entrelinhas.
Sem querer me estender por demais nessas linhas, apresento assim a força que me impele a construir esse blog e a expor meus pensamentos. Prometo me manter sempre aberto às críticas, assim como espero que vocês também relevem o meu jeitinho, digamos, por vezes meio bruto de responder a determinados tons que porventura considerar levianos ou agressivos. Sou assim e essa é minha tentativa de depuração: um mergulho em mim procurando encontrar vocês, mergulhando em vocês leitores concretos-virtuais-imaginários e fecundando um solo abstrato composto de uma lama poética impura e bela, profícua em novos sentidos, encontros e diálogos.
Ah, e MUITA POESIA também, é claro! Senão, decerto não seria eu.
Dito isso, por fim, ou por enquanto, dois poemas. Um do Drummond, “Os ombros suportam o mundo”, um dos meus poemas prediletos desse poeta maravilhoso que tanto amo. Outro meu, em homenagem ao dia do sorriso. Posto o link do youtube que me conhece já está careca de ver. Mas aí também foda-se. Eu o adoro!
Escolho-os porquanto elucidam, à maneira poética, o momento que hoje mais do que nunca estou passando.
Beijos a tod@s, sejam bem vind@s!
Os Ombros Suportam o Mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade