quarta-feira, 15 de maio de 2013


quero toda hora
beijo língua
olhar lascívia
piada sacana saliva
cintura mãos abraço
amasso bunda
cabelo queixo
pescoço seios
espaços meios
buceta cu

e entre os orgasmos
tu
no vazio
do meu apartamento
desmobiliado
mora uma lagartixa

sempre que a vejo
penso em matá-la
cortar-lhe o rabo
ou qualquer outro passatempo sádico

nada faço

só olho

mas sinto que ela desconfia dos meus desejos

sei não

qualquer hora dessa
acho que ela vai me jogar na parede

terça-feira, 7 de maio de 2013

golfadinha virtual pra esquentar a noitinha



eu nada levo

nem nada fica



antes do enterro

enterro a pica

na rima rica

que um dia tramei



nas musas loucas

por quem pirei



nos versos torpes

feitos na esquina

regado a álcool

e cocaína



que quando muito

nos tornam vivos

nos tantos braços

beijos e tiros



um dia a morte

veio matreira

e tirou-me pra dançar

a vida inteira



mas entretanto

pra meu espanto

fiquei mais leve



pois de tão breve

e fugidio

tudo ficou

menos vazio

bem mais intenso

e singular



por isso danço danço danço

e nunca penso

em como ou quando

enfim será



hoje eu digo

que vivo já



quer vir comigo

é só chegar



não quer se cale

fique na sua



vem cá ou suma

vai  – pode crê:



beijo na bunda

até mais ver

quinta-feira, 2 de maio de 2013

'cura gay' é o caralho!



Leio que existe uma proposta tramitando na Comissão de Direitos Humanos que pretende revogar uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que proíbe o trabalho terapêutico pretensamente voltado para a cura da homossexualidade, ou cura gay, como, grosso modo, é apresentado pelos veículos de comunicação. Essa notícia traz em seu bojo um corolário de absurdos tão vasto que, apesar de não ficarmos propriamente chocados, dado o momento de retrocesso político e recrudescimento das formas de manifestação de intolerância contra gays e lésbicas, me deixou por alguns instantes sem palavras, sem conseguir propriamente construir uma resposta para além de um misto de tristeza, raiva e estupefação.

Passados alguns instantes nessa paralisia inicial, começo a decompor analiticamente os elementos passíveis de argumentação e enfrentamento.

Um primeiro aspecto que salta aos olhos é o uso da comissão de DH para uma iniciativa como essa que vai na contramão de todos os esforços e trabalhos desenvolvidos. E o mais interessante – no sentido sinistro do termo – é que essa proposta se apresenta pretensamente alinhada ao campo, lançando mão de uma linha de argumentação que se desenvolve no sentido mesmo de ressignificar e realinhar seus marcos conceituais. E ainda que essa inversão se nos apresente sob a égide do absurdo e do cinismo, indica alguns pontos de tensão política que estão na base da conformação desses marcos, de seu caráter epistemológico e dos critérios de legitimidade que estão em jogo no momento da articulação dessa teia conceitual.

Nesse sentido, quando pensamos no caráter político das construções desses conceitos, o momento indica um perigo talvez muito maior do que uma mera questão de representação, mote principal da reação inicialmente adotada e difundida que, além de não ter logrado maiores efeitos, é impregnada de um purismo que acaba por dificultar uma leitura mais abrangente das tensões políticas existentes justamente por, em certa medida, colocá-las em segundo plano. E, a meu ver, nada pode ser mais contraproducente na disputa instaurada do que a busca de a prioris e essências...

A situação é muito desfavorável e a conformação de forças atuais apontam para a necessidade de uma intensificação do dissenso em todos os meios possíveis, entendendo que mesmo uma singela reunião de família ou conversa de botequim se configuram como palco indispensável para o confronto dessas ideias.

Quando falo isso aqui me refiro de maneira especial ao dia de ontem, meu retorno para Niterói e para o apartamento que morava até o começo de 2012 e, junto com isso, a retomada do convívio com a galera daqui. Ontem, passei praticamente a tarde inteira na esquina, primeiro almoçando, depois vendo jogos de futebol. A homofobia se apresenta nesses espaços de uma maneira tão intensa e que diverge tão radicalmente dos outros espaços que freqüento e pessoas que eu convivo que eu fiquei até meio assustado, confesso. Menos pela sua existência e mais pela noção de que a cada dia que passa me torno mais distante dessa rapaziada, apesar da proximidade física.

É engraçado, em certo sentido, também como a galera lida com minhas discordâncias e posicionamentos. A reação varia entre a chacota, o ataque verbal moderado e o silêncio irritado e desconfiado. Mas no final, não sei se por conta de ser poeta e psicólogo, diferente da maioria ter curso superior, o que pelo menos entre a galera confere um reconhecimento e status diferenciado, eles parecem relevar meus argumentos e no final a embriaguez geral transforma tudo em piadas grosseiras de mau gosto. É interessante também que por se tratar de um grupo caracterizado pelo uso de álcool e drogas, apesar de haver preconceito, há também uma aceitação e acolhimento da diferença. A cerveja e o pó acabam dissolvendo em certa medida as diferenças, ainda que numa relação superficial e pragmática.

Bom, ontem passou. Fico pensando hoje como alguns deles reagiriam ao ler essa notícia sobre a ‘cura gay’. Decerto seriam a favor, embora também não queiram perder muito tempo pensando nisso. O ratatá é sempre mais interessante.

Não sei até quando vai persistir esse convívio amistoso e nem sei se estou a fim de mantê-lo. O mesmo nojo que é sempre acionado pelos argumentos homofóbicos para justificarem ou caracterizarem o que sentem, acaba sendo refletido em mim sobre esses argumentos. As piadas vão ficando cada vez mais sem graça, irritantes, nojentas e insuportáveis – nessa ordem. O afastamento, de ambas as partes, é inevitável. Foda-se, c’est la vie, o tempo não pára.

Mas na verdade estou menos preocupado com eles do que, por exemplo, em saber como esse tipo de coisa reverbera dentro do campo da psicologia, na universidade, entre os profissionais da área. Ainda que por uma série de constrangimentos epistemológicos, éticos e políticos, uma pesquisa poderia falsear a presença de discursos coadunados com uma visão preconceituosa e homofóbica. Nesse sentido, uma observação participante de botequim se apresenta como bem mais interessante e profícua.

Também não quero me colocar uma aura superior ou me dizer além do bem e do mal. Porra nenhuma, tenho meus preconceitos. Mas penso que especialmente nesse último ano o convívio intenso com diversos amigos gays me fez perceber a questão de uma maneira radicalmente diferente. Por conta disso mesmo acho que criei uma resistência e revolta com esses argumentos e essa galera.

E diante da importância desse debate e desse embate nos dias atuais, acho importante que a gente não se furte de marcar posição e evidenciar o dissenso sempre que puder e achar que vale a pena. Porque tem gente também que se você for ver bem nem vale o esforço.

terça-feira, 30 de abril de 2013

um pouquinho de poesia pra alegrar o dia...



tem dor que a gente toma comprimidos
e sara

tem dor que a gente toma um porre
e esquece

tem dor que a gente joga no tempo
e no que passa
o tempo leva

mas tem dor
que a gente toma comprimidos
e não sara

toma um porre
e não esquece

joga no tempo
e o tempo não leva

faz o seguinte: aguarda
e aos poucos
a dor
vai cativando

se ela gostar de você
concede doer
só de vez em quando

(...)



o problema do ciúme
é quando um
tolhe tanto
o outro
que o outro
torna-se um
outro
que nem um
nem outro
gostam

e vice-versa

depuração, neonazistas, Niterói...



Agora de noite relendo minhas boas vindas aqui no blog fiquei pensando na proposta que se delineou com meu discurso acerca da depuração. Em parte achei um texto emotivo pra cacete – o que é até bacana e bem característico de muitos dos meus textos – e que apontava um viés estranho que nem eu mesmo pude entender direito o que me propunha. Talvez regido por fatores pessoais que não caibam aqui e agora elucidar. Talvez... Mas o fato é que fiquei me perguntando – e agora, Bodão? Qual vai ser desse blog?

Bom, vou seguir o fluxo e falar sobre um tema que me parece fazer um certo sentido com o que foi dito e com o que vem se passando na minha cabeça nos últimos dias.

Não sei ao certo se ontem ou anteontem houve um caso que chocou a população de Niterói e adjacências, ganhando grande repercussão na imprensa. Falo sobre o espancamento de um jovem de origem nordestina por integrantes de um grupo neonazista em plena luz do dia numa das áreas mais movimentadas da cidade. Justamente por conta desse intenso movimento, o mesmo escapou, sendo socorrido pelas pessoas que ali passavam.

Num primeiro momento, choca a existência de um grupo neonazista, sempre chocará. Estamos acostumados a pensar esse fenômeno como algo próprio do continente europeu, quando muito presentes no Sul do país e em algumas regiões de São Paulo. Essa ocorrência numa cidade como Niterói, a princípio, parece completamente fora de propósito, anacrônica, implausível.

Mas me pergunto – será mesmo tão implausível assim?

Não sei se por conta de ter nascido e crescido aqui, especialmente no bairro de Icaraí, um bairro predominantemente de classe média e média alta, e por conhecer profundamente diferentes gerações de moradores, confesso que tal ocorrência não me causou propriamente espanto. Mesmo quando soube que esse tal grupo é composto por pessoas de Niterói, Rio e São Gonçalo. O fato é que o espancamento aconteceu aqui, em frente à estação das barcas.

Em parte por conta do meu trajeto na cidade do Rio de Janeiro, onde em geral estabeleci relações de amizade ligadas ao samba, à poesia, ao trabalho e ao estudo, tendo ainda morado por algumas vezes em diferentes bairros, mas sem ter essa coisa de cria do local. Em parte também por conta das escolhas profissionais e acadêmicas que empreendi, penso eu, norteando minimamente os locais que frequento, tal fato me soaria mais incongruente na maior parte da cidade do Rio de Janeiro. 

Talvez por sua vocação menos provinciana e mais cosmopolita – ainda que nem tão cosmopolita assim – tenho para mim que a presença de tais grupos no Rio, ainda que os tenham, são ao menos mais inibidas e escamoteadas do tecido social urbano. Não sei, talvez, eu penso, por conta desse caráter mais cosmopolita, tais manifestações são mais dissimuladas, como aliás o racismo se apresenta de modo geral em nossa sociedade.

Bom, o fato é que imediatamente me lembrei de uma foto em preto e branco, antiga, talvez do começo do século passado, postada no facebook que mostrava uma bandeira nazista hasteada onde, se não me engano, está localizado hoje o Iate Clube Brasileiro, na Estrada Fróes, que faz a ligação entre os bairros de Icaraí e São Francisco, margeando o morro do Cavalão. Estrada, aliás, que é quase totalmente ocupada por grandes casarões e mansões com acesso à Baía de Guanabara e que exerce uma incrível dissonância geográfica com o entorno quando notamos que ficam ao lado de uma das mais populosas favelas da cidade. Enfim, como em geral é quase todo o Rio de Janeiro... 

Ao lado dessa lembrança, me vem a ainda a percepção cotidiana de como em Niterói é onde escuto mais despudoramente piadas de cunho racista nos bares e mesmo entre conhecidos. E isso me soa de modo mais marcante justamente porque não estou acostumado a ouvir tais piadas já há bastante tempo, em parte pelos lugares que frequento, imagino, mas com certeza também em grande parte por conta da assimilação do racismo e das piadas de cunho racista como crime. As pessoas por aqui, apesar de por vezes baixarem o tom de voz para desfiar seus descalabros, decididamente parecem não ter vergonha de assumir seu racismo. 

Piadas homofóbicas e machistas são bem mais comuns em quase todos os botecos e pés sujos que frequento. Mas piadas racistas, tão despudoramente contadas como aqui por essas bandas, confesso que não consigo me lembrar nos dias atuais.

Sem falar na eterna desqualificação de São Gonçalo, desqualificação que me é mais irritante ainda – apesar de até certa medida compreensível – quando reproduzida e legitimada por seus próprios moradores, que assimilam o preconceito e passam a sacanear aspectos da sua cidade e mencionam quase sempre timidamente os nomes de seus locais de moradia.

Se pensarmos em quão pouco tempo, dentro de uma perspectiva histórica mais ampla tais ideologias passaram a ser tomadas como crime e enfrentadas socialmente; se pensarmos em como persiste um corolário de manifestações de intolerância e de quão pouco tempo faz do final do período da ditadura e começo da implementação de um regime democrático, essa ameaça já não soa tão anacrônica e implausível assim. 

Mas, sincera e infelizmente, se pensarmos em certas características da cidade de Niterói, fica menos ainda.
Uma chave para o entendimento dessa questão talvez seja possível a partir de um recorte histórico genealógico que remonte ao processo de ocupação e das vicissitudes políticas da cidade e do Estado do Rio de Janeiro como um todo. Talvez.

Mas o que fica patente é a necessidade óbvia de efetivar-se uma resposta imediata e exemplar a fim de ampliar o alcance das medidas voltadas para a superação e enfrentamento desse tipo de pensamento.