quinta-feira, 2 de maio de 2013

'cura gay' é o caralho!



Leio que existe uma proposta tramitando na Comissão de Direitos Humanos que pretende revogar uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que proíbe o trabalho terapêutico pretensamente voltado para a cura da homossexualidade, ou cura gay, como, grosso modo, é apresentado pelos veículos de comunicação. Essa notícia traz em seu bojo um corolário de absurdos tão vasto que, apesar de não ficarmos propriamente chocados, dado o momento de retrocesso político e recrudescimento das formas de manifestação de intolerância contra gays e lésbicas, me deixou por alguns instantes sem palavras, sem conseguir propriamente construir uma resposta para além de um misto de tristeza, raiva e estupefação.

Passados alguns instantes nessa paralisia inicial, começo a decompor analiticamente os elementos passíveis de argumentação e enfrentamento.

Um primeiro aspecto que salta aos olhos é o uso da comissão de DH para uma iniciativa como essa que vai na contramão de todos os esforços e trabalhos desenvolvidos. E o mais interessante – no sentido sinistro do termo – é que essa proposta se apresenta pretensamente alinhada ao campo, lançando mão de uma linha de argumentação que se desenvolve no sentido mesmo de ressignificar e realinhar seus marcos conceituais. E ainda que essa inversão se nos apresente sob a égide do absurdo e do cinismo, indica alguns pontos de tensão política que estão na base da conformação desses marcos, de seu caráter epistemológico e dos critérios de legitimidade que estão em jogo no momento da articulação dessa teia conceitual.

Nesse sentido, quando pensamos no caráter político das construções desses conceitos, o momento indica um perigo talvez muito maior do que uma mera questão de representação, mote principal da reação inicialmente adotada e difundida que, além de não ter logrado maiores efeitos, é impregnada de um purismo que acaba por dificultar uma leitura mais abrangente das tensões políticas existentes justamente por, em certa medida, colocá-las em segundo plano. E, a meu ver, nada pode ser mais contraproducente na disputa instaurada do que a busca de a prioris e essências...

A situação é muito desfavorável e a conformação de forças atuais apontam para a necessidade de uma intensificação do dissenso em todos os meios possíveis, entendendo que mesmo uma singela reunião de família ou conversa de botequim se configuram como palco indispensável para o confronto dessas ideias.

Quando falo isso aqui me refiro de maneira especial ao dia de ontem, meu retorno para Niterói e para o apartamento que morava até o começo de 2012 e, junto com isso, a retomada do convívio com a galera daqui. Ontem, passei praticamente a tarde inteira na esquina, primeiro almoçando, depois vendo jogos de futebol. A homofobia se apresenta nesses espaços de uma maneira tão intensa e que diverge tão radicalmente dos outros espaços que freqüento e pessoas que eu convivo que eu fiquei até meio assustado, confesso. Menos pela sua existência e mais pela noção de que a cada dia que passa me torno mais distante dessa rapaziada, apesar da proximidade física.

É engraçado, em certo sentido, também como a galera lida com minhas discordâncias e posicionamentos. A reação varia entre a chacota, o ataque verbal moderado e o silêncio irritado e desconfiado. Mas no final, não sei se por conta de ser poeta e psicólogo, diferente da maioria ter curso superior, o que pelo menos entre a galera confere um reconhecimento e status diferenciado, eles parecem relevar meus argumentos e no final a embriaguez geral transforma tudo em piadas grosseiras de mau gosto. É interessante também que por se tratar de um grupo caracterizado pelo uso de álcool e drogas, apesar de haver preconceito, há também uma aceitação e acolhimento da diferença. A cerveja e o pó acabam dissolvendo em certa medida as diferenças, ainda que numa relação superficial e pragmática.

Bom, ontem passou. Fico pensando hoje como alguns deles reagiriam ao ler essa notícia sobre a ‘cura gay’. Decerto seriam a favor, embora também não queiram perder muito tempo pensando nisso. O ratatá é sempre mais interessante.

Não sei até quando vai persistir esse convívio amistoso e nem sei se estou a fim de mantê-lo. O mesmo nojo que é sempre acionado pelos argumentos homofóbicos para justificarem ou caracterizarem o que sentem, acaba sendo refletido em mim sobre esses argumentos. As piadas vão ficando cada vez mais sem graça, irritantes, nojentas e insuportáveis – nessa ordem. O afastamento, de ambas as partes, é inevitável. Foda-se, c’est la vie, o tempo não pára.

Mas na verdade estou menos preocupado com eles do que, por exemplo, em saber como esse tipo de coisa reverbera dentro do campo da psicologia, na universidade, entre os profissionais da área. Ainda que por uma série de constrangimentos epistemológicos, éticos e políticos, uma pesquisa poderia falsear a presença de discursos coadunados com uma visão preconceituosa e homofóbica. Nesse sentido, uma observação participante de botequim se apresenta como bem mais interessante e profícua.

Também não quero me colocar uma aura superior ou me dizer além do bem e do mal. Porra nenhuma, tenho meus preconceitos. Mas penso que especialmente nesse último ano o convívio intenso com diversos amigos gays me fez perceber a questão de uma maneira radicalmente diferente. Por conta disso mesmo acho que criei uma resistência e revolta com esses argumentos e essa galera.

E diante da importância desse debate e desse embate nos dias atuais, acho importante que a gente não se furte de marcar posição e evidenciar o dissenso sempre que puder e achar que vale a pena. Porque tem gente também que se você for ver bem nem vale o esforço.

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