Leio que existe uma proposta tramitando na Comissão de
Direitos Humanos que pretende revogar uma resolução do Conselho Federal de
Psicologia que proíbe o trabalho terapêutico pretensamente voltado para a cura
da homossexualidade, ou cura gay, como, grosso modo, é apresentado pelos
veículos de comunicação. Essa notícia traz em seu bojo um corolário de absurdos
tão vasto que, apesar de não ficarmos propriamente chocados, dado o momento de
retrocesso político e recrudescimento das formas de manifestação de intolerância
contra gays e lésbicas, me deixou por alguns instantes sem palavras, sem
conseguir propriamente construir uma resposta para além de um misto de
tristeza, raiva e estupefação.
Passados alguns instantes nessa paralisia inicial, começo a
decompor analiticamente os elementos passíveis de argumentação e enfrentamento.
Um primeiro aspecto que salta aos olhos é o uso da comissão
de DH para uma iniciativa como essa que vai na contramão de todos os esforços e
trabalhos desenvolvidos. E o mais interessante – no sentido sinistro do termo –
é que essa proposta se apresenta pretensamente alinhada ao campo, lançando mão
de uma linha de argumentação que se desenvolve no sentido mesmo de
ressignificar e realinhar seus marcos conceituais. E ainda que essa inversão se
nos apresente sob a égide do absurdo e do cinismo, indica alguns pontos de
tensão política que estão na base da conformação desses marcos, de seu caráter
epistemológico e dos critérios de legitimidade que estão em jogo no momento da
articulação dessa teia conceitual.
Nesse sentido, quando pensamos no caráter político das
construções desses conceitos, o momento indica um perigo talvez muito maior do
que uma mera questão de representação, mote principal da reação inicialmente
adotada e difundida que, além de não ter logrado maiores efeitos, é impregnada
de um purismo que acaba por dificultar uma leitura mais abrangente das tensões
políticas existentes justamente por, em certa medida, colocá-las em segundo
plano. E, a meu ver, nada pode ser mais contraproducente na disputa instaurada
do que a busca de a prioris e essências...
A situação é muito desfavorável e a conformação de forças
atuais apontam para a necessidade de uma intensificação do dissenso em todos os
meios possíveis, entendendo que mesmo uma singela reunião de família ou
conversa de botequim se configuram como palco indispensável para o confronto dessas
ideias.
Quando falo isso aqui me refiro de maneira especial ao dia
de ontem, meu retorno para Niterói e para o apartamento que morava até o começo
de 2012 e, junto com isso, a retomada do convívio com a galera daqui. Ontem,
passei praticamente a tarde inteira na esquina, primeiro almoçando, depois
vendo jogos de futebol. A homofobia se apresenta nesses espaços de uma maneira
tão intensa e que diverge tão radicalmente dos outros espaços que freqüento e
pessoas que eu convivo que eu fiquei até meio assustado, confesso. Menos pela
sua existência e mais pela noção de que a cada dia que passa me torno mais
distante dessa rapaziada, apesar da proximidade física.
É engraçado, em certo sentido, também como a galera lida com
minhas discordâncias e posicionamentos. A reação varia entre a chacota, o
ataque verbal moderado e o silêncio irritado e desconfiado. Mas no final, não
sei se por conta de ser poeta e psicólogo, diferente da maioria ter curso
superior, o que pelo menos entre a galera confere um reconhecimento e status
diferenciado, eles parecem relevar meus argumentos e no final a embriaguez
geral transforma tudo em piadas grosseiras de mau gosto. É interessante também
que por se tratar de um grupo caracterizado pelo uso de álcool e drogas, apesar
de haver preconceito, há também uma aceitação e acolhimento da diferença. A
cerveja e o pó acabam dissolvendo em certa medida as diferenças, ainda que numa
relação superficial e pragmática.
Bom, ontem passou. Fico pensando hoje como alguns deles
reagiriam ao ler essa notícia sobre a ‘cura gay’. Decerto seriam a favor,
embora também não queiram perder muito tempo pensando nisso. O ratatá é sempre
mais interessante.
Não sei até quando vai persistir esse convívio amistoso e
nem sei se estou a fim de mantê-lo. O mesmo nojo que é sempre acionado pelos
argumentos homofóbicos para justificarem ou caracterizarem o que sentem, acaba
sendo refletido em mim sobre esses argumentos. As piadas vão ficando cada vez
mais sem graça, irritantes, nojentas e insuportáveis – nessa ordem. O
afastamento, de ambas as partes, é inevitável. Foda-se, c’est la vie, o tempo
não pára.
Mas na verdade estou menos preocupado com eles do que, por
exemplo, em saber como esse tipo de coisa reverbera dentro do campo da
psicologia, na universidade, entre os profissionais da área. Ainda que por uma
série de constrangimentos epistemológicos, éticos e políticos, uma pesquisa
poderia falsear a presença de discursos coadunados com uma visão preconceituosa
e homofóbica. Nesse sentido, uma observação participante de botequim se
apresenta como bem mais interessante e profícua.
Também não quero me colocar uma aura superior ou me dizer
além do bem e do mal. Porra nenhuma, tenho meus preconceitos. Mas penso que
especialmente nesse último ano o convívio intenso com diversos amigos gays me
fez perceber a questão de uma maneira radicalmente diferente. Por conta disso
mesmo acho que criei uma resistência e revolta com esses argumentos e essa
galera.
E diante da importância desse debate e desse embate nos dias
atuais, acho importante que a gente não se furte de marcar posição e evidenciar
o dissenso sempre que puder e achar que vale a pena. Porque tem gente também
que se você for ver bem nem vale o esforço.
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